| Competências x Estratégias
Competitivas
Eduardo
Schumann
Gerente Eficácia Organizacional
Wisdom Gestão Organizacional
22/02/2008 |
Muito tem sido falado sobre competências nos últimos
anos. Considerando um ambiente de transformações
cada vez mais dinâmico, até que ponto o desenvolvimento
de competências nas suas formas mais usuais atinge
seus objetivos e apóia as estratégias competitivas
de uma empresa?
Ao contrário de uma abordagem de fora para dentro
(como o modelo das 5 forças de Porter) onde mercado,
competição e clientes são posicionados
no início do processo estratégico, o modelo
de core competencies de Hamel e Prahalad faz o inverso assumindo
que no longo prazo a competitividade deriva da habilidade
de criar produtos não antecipados, com menor custo
e mais rapidamente que os concorrentes. As reais fontes
de vantagem seriam encontradas em gestores que conseguem
consolidar tecnologias e habilidades produtivas em competências
que permitem adaptar rapidamente o negócio a mudanças
mercadológicas. Assim core competencies podem ser
qualquer combinação específica de conhecimento
integrado ou aplicado, habilidades e atitudes que precisam
atender a três requisitos: oferecer percebíveis
benefícios aos clientes/consumidores; ser difícil
de imitar; e prover acesso a ampla variedade de mercados.
Também devem estar associadas a um processo sistemático
de aprendizagem, que envolve descoberta, inovação
e capacitação de recursos humanos.
É importante destacar que existem tanto exemplos
de empresas bem sucedidas orientadas de fora para dentro
(seguindo os conceitos de Porter) quanto de dentro para
fora (core competencies). Bons exemplos do primeiro grupo
são: Apple (que comprou licenças de tecnologia
no mercado e trouxe pessoas com novas competências
para o desenvolvimento do iPod e do iPhone) e a Toyota (que
criou desenvolveu em parceria inúmeras opções
de carroceria e de motor, além de uma joint venture
com a Matsushita para fabricação de baterias,
na criação do Prius). Do segundo grupo boas
referências seriam: Sony (reconhecida competência
em miniaturização em eletrônicos e qualidade)
e a 3M (inovação). Num passado não
tão distante, as empresas do segundo grupo se destacavam.
Entretanto, num mercado cada vez mais dinâmico e globalizado,
estas empresas estão perdendo terreno para as empresas
do primeiro grupo. A Sony perdeu valor de mercado nos últimos
5 anos e foi ultrapassada pela Samsung (em 2006 Sony = US$
11,7 bilhões x Samsumg = US$ 16,2 bilhões).
A 3M, antes ocupante assídua, sumiu da lista das
100 maiores marcas. Recentemente, a Proctor&Gamble abriu
sua área de Pesquisa e Desenvolvimento ao mercado
(Connect+Develop), assumindo que assim conseguirá
buscar mais rapidamente soluções inovadoras
no mercado.
Um caso extremo foi o da GE. Na mudança estratégica
de passar de uma empresa de eletrodomésticos para
uma empresa de soluções (incluindo serviços
financeiros) foram substituídos 250.000 executivos
e funcionários de alto escalão. Motivo: trazer
para a empresa profissionais com o novo perfil (competências)
desejado.
Olhando com mais atenção, podemos notar que,
de alguma forma, mudanças incrementais podem ser
montadas em cima de recursos ou competências existentes.
Esta solução não parece possível
para mudanças transformacionais e/ou radicais onde
novos conjuntos de competências serão necessários.
A tendência é que mudanças radicais
se tornem cada vez mais freqüentes. Os ciclos dos produtos
são cada vez mais curtos. Mudanças de processos,
modelos de negócios, tecnológicas (incluindo
obsolescência acelerada), sociais, demográficas
e de interesses, desejos e hábitos dos clientes (lembrando
que mesmo empresas B2B são, em algum ponto da cadeia
de valor, afetadas por usuários finais) são
cada vez mais rápidas e imprevisíveis. Novos
produtos e tecnologias não apenas nos Estados Unidos,
Japão e Europa, mas também Coréia do
Sul, China, Índia ou Conchichina podem afetar os
negócios em qualquer parte do planeta. Ou seja, existem
mais e mais variáveis a serem consideradas.
Análises de causa e efeito (raciocínio cartesiano)
não conseguem explicar situações com
grande quantidade de variáveis (como a meteorologia).
Analogamente, a quantidade de variáveis, controláveis
e não controláveis, em um ambiente de negócios
força a necessidade de outro tipo de competência:
o raciocínio sistêmico (como comentado por
Senge). É a era das incertezas, das ambigüidades
e também das possibilidades.
A quantidade de variáveis incontroláveis
é cada vez maior. Isto força um tipo de postura
diferente por parte das empresas. Planos de longo prazo
precisam ser revistos constantemente. É necessária
uma nova competência: a adaptabilidade constante.
E isto não está no DNA das empresas (conforme
exposto recentemente pelo próprio Hamel). A natureza
humana quer que as coisas sejam estáveis e previsíveis...
Quantas pessoas previram o atentado às Torres Gêmeas
em 2001 no mundo ou o dólar a R$ 1,80 em 2007 no
Brasil?
Segundo McClelland, competência é uma característica
subjacente a uma pessoa casualmente relacionada com uma
performance superior na realização de uma
tarefa ou em determinada situação. Ainda segundo
McClelland, o desenvolvimento de competências não
é um processo rápido.
Ainda mais problemático é o processo de desenvolvimento
de competências muitas vezes adotado. Algumas características
relacionadas a uma performance superior, medidas em geral
subjetivamente, são identificadas. Procura-se então
homogeneizar os demais profissionais desenvolvendo estas
mesmas competências. Esquecendo-se que o tempo passado
não volta mais e que a performance observada naquele
dado momento podia ter sido afetada por variáveis
externas e a situação medida dificilmente
será replicada em outras condições.
Especialmente se, neste meio tempo, houverem situações
de ruptura. O ideal seria capitalizar em cima de diversidade.
Quanto mais heterogêneo o grupo, mais situações
diferentes podem ser consideradas e analisadas. Ter diversidade
é como ter mais antenas para diferentes tipos de
sinais. Assim, ampliando a captura de informações
(zona de radar) para tomada de decisões, problemas
podem ser mais facilmente percebidos e antecipados, observando
o que vale a pena investir (custo de oportunidade). Obviamente
para que isto aconteça é necessário
que a comunicação interna também flua
adequadamente, mas isto é assunto para outro artigo.
A importância desta diversidade não pode ser
subestimada, são inúmeros os casos de grandes
empresas que literalmente “pisaram na bola”
com algum grupo de partes interessadas, seja por questões
culturais, étnicas, religiosas ou de valores. Também
é importante notar que antecipar-se a tendências
e mudanças pode agregar valor a uma empresa. Quando
os fatos se tornam óbvios, é muito provável
que algum concorrente também já esteja trabalhando
no desenvolvimento de novos produtos e serviços (o
bonde pode ter passado).
O Timing para agir em ameaças ou novas oportunidades
é fundamental para o sucesso. Em eventos de mudanças
transformacionais e/ou radicais tempo é um recurso
escasso. Maior o tempo para reagir, maior o custo da mudança.
Demorar pode levar a um ótimo produto que ninguém
quer mais. Quanto maior a empresa, mais tempo leva para
reagir (apesar de ter mais condições de identificar
perigos no radar). Segundo Jobs, inovação
tem mais a ver com as pessoas que você tem do que
o orçamento de P&D. Aproximadamente 90% dos novos
produtos desenvolvidos não alcançam o sucesso.
Fazer tem chances de errar (não tem garantia), mas
o não fazer é ainda pior: é a certeza
do fracasso.
Existe um mito organizacional que reduzindo custos aumenta
margens, quando na realidade crescer e criar constantemente
novos produtos, serviços e agregar valor é
que pode garantir lucro e a sustentabilidade da empresa.
Sucesso não é algo permanente. O risco de
“commoditização” é sempre
presente. Diferenciais competitivos se deterioram rapidamente.
Novas idéias são imitadas e até melhoradas
pela concorrência. Novos processos e saltos tecnológicos
podem inviabilizar empresas da noite para o dia. Melhorias
não podem ser vistas em termos absolutos, mas em
termos relativos. É necessário saber o que
os outros estão fazendo. A GM produz hoje carros
melhores do que fabricava há 15 anos. Entretanto,
apesar de líder de mercado há 77 anos, a participação
no mercado mundial tem sido decrescente. Isto porque os
concorrentes, em especial Toyota e Honda, têm melhorado
ainda mais (oferecendo produtos com melhor custo x benefício).
É necessário reinventar o negócio
constantemente, mudar as estratégias para gerar lucro
e adaptar-se rapidamente a novas condições.
Isto implica revisar também o perfil dos profissionais
da empresa. Não parece razoável ir aos extremos
de Hamel e Porter. O melhor seria algo intermediário.
A empresa deve buscar expandir seu portfólio de competências
a partir de uma base já existente para possibilitar
melhorias incrementais. Uma possibilidade é a forma
sugerida por Dutra: definir um contrato de entrega com os
empregados. Uma forma de avaliar a plena aplicação
de competência é através da entrega.
Entregar significa atingir resultados. E para isto é
necessário alinhamento estratégico amplo e
visão sistêmica. Ver o que é o melhor
não para uma área, mas para a organização
como um todo. E acima de tudo, estar atento para a necessidade
de mudanças transformacionais ou radicais que possivelmente
necessitarão mudanças muito maiores: novos
conjuntos de competências, novas estruturas, novos
processos e novos contratos de entrega. É um alvo
em movimento.
Sem um alinhamento entre estratégias, estruturas,
processos e pessoas, os sucessos de ontem podem se tornar
a falência no amanhã. Se as empresas têm
dificuldades para mudar estratégias, mudar pessoas
é ainda mais difícil. Mudar empresas mais
difícil ainda. Muitas vezes uma força inercial
invisível chamada cultura organizacional dificulta
mudanças maiores. Não mudar significa ficar
para trás. Mudar não significa necessariamente
acertar, mas o risco pode ser menor. Portanto, a aplicação
e o desenvolvimento de competências precisa ser repensado
para poder se encaixar nas estratégias competitivas
de acordo com as novas realidades do mercado.
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