| Tendências na Gestão
de Pessoas
Celia
Dutra
Superintendente de Recursos Humanos da Comgás
– Cia de Gás de São Paulo |
As organizações enfrentam a cada dia mais
desafios relacionados à gestão de pessoas
e, nos próximos anos, questões envolvendo
este tema poderão determinar a capacidade das empresas
de atingir os seus objetivos de negócio.
Neste mundo, onde o que precisa ser feito depende de indivíduos,
que necessitam articular-se e atuar de modo a obter resultados
diferenciados a cada momento e fazer sempre mais com menos,
a função de RH tem se mostrado, cada vez mais,
uma área com grande impacto no negócio.
Para agregar valor, RH precisa focar no tratamento de desafios
estratégicos relacionados a gestão de pessoas,
tais como o crescimento sustentado do negócio, o
desenvolvimento de novas competências organizacionais,
a escassez de mão-de-obra qualificada, a mudança
constante, a gestão do conhecimento, a identificação
e gestão de riscos e conformidade.
Só que a este cenário se contrapõe
a própria função de RH.
Como assegurar a agregação de valor no caminho
que a empresa seguirá, quando muito do trabalho de
RH ainda está na operacionalização
do dia-a-dia?
Aí está o desafio para nós, profissionais
da área. Novas capacidades, soluções
e serviços são requeridos, mas as pesquisas
sobre os caminhos de RH mostram que ainda há espaço
para uma atuação verdadeiramente estratégica.
A área de RH precisa de foco na eficiência
de suas atividades e processos, visto não ser possível
esperar que haja reconhecimento de uma função
cuja entrega básica apresenta alto índice
de não-conformidades ou mesmo erros.
Então, o que fazer para assegurar o equilíbrio
entre a atuação estratégica e o desempenho
de funções essenciais, mas transacionais?
Acredito que há cinco dimensões específicas
que devem ser repensadas:
1) Comunicação na área:
embora RH pregue que a comunicação é
ferramenta essencial para o engajamento dos empregados e
a entrega sustentada, há internamente e na maior
parte das vezes, pouco cuidado com a necessidade de comunicação
clara e constante.
A clareza sobre o papel e responsabilidades de RH mostra
à equipe do próprio RH a trilha, e não
necessariamente o trilho, o que dificulta a construção
de uma clara imagem de futuro.
Explicitar as iniciativas da área para os próximos
anos também dão sentido à jornada,
ajudando a equipe a escolher entre diversas demandas e priorizar
o que fazer.
2) Modelo de atuação: RH
sempre precisará equilibrar questões operacionais,
de controle e assessoria. Não há como evitar
o transacional. Somos uma área intensiva em processos,
que precisa funcionar tal qual qualquer empresa de prestação
de serviço, atuando com foco na satisfação
de seu cliente, em nosso caso os empregados e gestores.
Esta atividade transacional traz como conseqüência
uma necessidade de controle, que não pode ser subestimada.
Para que todo o tempo disponível não seja
consumido por esta parte da responsabilidade de RH, é
preciso estabelecer processos que garantam a eficiência
e a credibilidade, com o menor custo possível.
Muitas empresas, para assegurar o foco nestas várias
dimensões, têm revisto sua organização,
estruturando-se através de:
- Áreas especialistas, que atuam no desenvolvimento
de políticas, procedimentos e programas que atendam
às necessidades do negócio;
- Consultoria Interna ou Business Partners,
focados na identificação, proposta e implementação
de soluções junto aos clientes internos
suportando o desenvolvimento e implantação
das estratégias do negócio;
-Áreas de serviço, para o atendimento ao
empregado nos aspectos relacionados à sua vida
funcional, operacionalização de políticas,
procedimentos, programas e processamento de folha de pagamento.
3) Infra-estrutura: a padronização
de processos e utilização de tecnologia são
essenciais para ajudar RH em sua transformação.
Auto-serviço e serviços compartilhados, quando
a empresa tem escala para tanto, devem ser os pilares do
modelo de entrega de serviços de RH.
As transações e operações administrativas
suportadas pela utilização de tecnologia em
larga escala, melhoram a entrega destes serviços,
a satisfação do cliente e aumentam o acesso
a informações, reduzindo a necessidade de
suporte presencial das equipes de RH e liberando tempo para
uma nova forma de atuação.
4) Capacidades: a equipe de RH deve ter
clareza sobre as competências e habilidades necessárias
para o exercício de seu papel. Uma estratégia
clara para contratação e desenvolvimento dos
profissionais da área com base nas competências
requeridas deve ser implantada para que o novo modelo de
atuação seja operacionalizado e as questões
estratégicas do negócio plenamente atendidas.
5) Indicadores: embora valorizados são
de difícil definição, pois devem buscar
os resultados entregues e não as atividades desempenhadas.
Indicadores claramente focados na entrega servem para mensurar
se os objetivos propostos estão sendo alcançados
e redirecionar a forma de atuação da área
a partir dos insights obtidos com seu monitoramento
ao longo do tempo.
Além dos indicadores propriamente ditos, acordos
de nível de serviços (SLAs em inglês)
ajudam a função de RH a aperfeiçoar
a qualidade de suas atividades, aprimorar o nível
de controle e reduzir custos, com efeito direto nos negócios.
Alguns itens, não mais que dez, ligados diretamente
a cada processo, definem quantitativa e qualitativamente
o esperado, alinhando expectativas e facilitando a identificação
das origens dos problemas.
Uma vez estabelecida esta base, como definir o que a função
de RH deve fazer para agregar valor?
Como define Dave Ulrich em seu livro The value proposition,
o valor é definido e reconhecido mais por quem recebe
do que por quem oferece, o que significa que a entrega de
RH em um projeto ou simples relação precisa
ser reconhecida pelo cliente interno como valiosa conforme
seu julgamento e expectativa.
Para ser valorizado e reconhecido é preciso que
RH defina sua própria proposta de valor para oferta
aos parceiros do negócio, cuja premissa é
a entrega segundo a ótica de cada parceiro, e não
baseada em uma fórmula com foco interno e do tipo
one fits all.
Desta forma, os programas que RH faz não devem ser
aqueles que a equipe quer oferecer, mas os que seus parceiros
internos e/ou externos efetivamente necessitam e reconhecem
como valiosos devido aos resultados gerados para viabilizar
os seus próprios objetivos.
Por tudo isto, sem esquecer que sempre seremos uma função
intensiva em termos de processos e transações,
é necessário focar fora da própria
função de RH, encontrando caminhos para melhorar
o desempenho do negócio e aperfeiçoar suas
vantagens competitivas.
Somente mais próximo aos clientes, tanto internos
quanto externos, entendendo suas demandas, RH será
capaz de apresentar soluções para o negócio,
e não simplesmente um programa, palestra, treinamento
ou a entrega de atividades transacionais.
E aí estará o valor gerado para a empresa. |