| Pessoas sustentáveis em
empresas sustentáveis
Cristina Moreno
é Engenheira Química, Consultora e ex-Gerente
Geral de Sustentabilidade da VERACEL
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Embora nem sempre aplicada corretamente, a Sustentabilidade
encontra-se de uma maneira ou de outra, presente em quase
todas as empresas. O que é ainda relativamente novo
é o entendimento da Sustentabilidade como um modelo
de gestão organizacional pautado em relações
éticas, transparentes e de qualidade com todos os
seus relacionamentos, incorporando, integrada e holisticamente,
as dimensões ambiental, econômica e social.
O aspecto mais relevante deste modelo de gestão
é o resgate de valores que se perderam dentro das
organizações frente a cada vez mais acirrada
competição empresarial e a necessidade de
sobrevivência num mundo sem fronteiras e sem limites,
em que o crescimento é importante meta propulsora
e não há espaço para laços de
cooperação. Resgatar estes valores e fazê-los
presentes em todas as decisões requer uma revisão
de práticas e costumes internos e conseqüentes
mudanças organizacionais.
Metaforicamente, se entendermos a sociedade como um ser
vivo, teremos uma sociedade sadia se todos os seus órgãos
estiverem sadios. Portanto, pessoas sadias fazem sociedades
sadias, pessoas sustentáveis criam sociedades sustentáveis
e processos de mudanças só ocorrem através
de pessoas. Sabidamente os processos de mudança organizacional
quase nunca atingem os resultados esperados, o que não
quer dizer que as pessoas resistam às mudanças
– elas resistem a terem que mudar por imposição
de terceiro e necessitam de tempo para entendimento do novo
paradigma e sua absorção. Tempo este que as
empresas não têm.
Ecologia e Sustentabilidade
Ecologia é uma ciência viva
que trabalha com espaços e territórios, mas
também com funções e comportamentos.
Está associada à relação entre
os organismos, a interação (ação
em conjunto) dos seres vivos entre si e também o
meio ambiente. Ecologia é a ciência das relações,
incluindo as relações do homem com todo o
Universo e entre seus pares. É, portanto uma necessidade
de todas as pessoas.
Sustentabilidade é o princípio
de ir além do presente, usando, hoje, o necessário,
mas preservando o universo para gerações futuras.
É equilibrar as nossas relações, procurando
harmonia e cooperação. Inclui-se nestas relações
o equilíbrio do sistema produtivo com o sistema sociocultural
através de ações coletivas. De acordo
com Nelson Assal: “Sustentabilidade é utilizar
os ativos da organização para catalisar a
transformação da sociedade, otimizando o valor
futuro líquido.” Resumindo, é buscar
qualidade de vida das populações hoje e no
futuro.
Comparando os dois conceitos, observa-se que a Sustentabilidade
tem sua inspiração científica na Ecologia,
através do componente relacionamento. E relacionamento
é desenvolvido por pessoas!
A Nova Visão
Negócios
são sustentáveis quando conseguem equilibrar
os pilares econômico,social e ambiental. E se relacionam,
em todos os aspectos, de maneira transparente. Por outro
lado, são pessoas que rodam os negócios e
podemos dizer que as organizações são
sistemas vivos que possuem dimensões biológicas,cognitivas
e sociais. Pessoas são, portanto, células
que se juntam formando uma estrutura chamada empresa. Para
que a organização seja sadia e sustentável,
cada membro, individualmente, também precisa ser
sadio e sustentável.
O que nos sustenta como pessoas? Fazendo um paralelo com
o “Triple Bottom Line”, também podemos
identificar três pilares importantes:
- Nossa Inteligência – permite o raciocínio
lógico e nos torna únicos e diferentes de
qualquer outro ser vivo;
- Nossas Emoções – permitem nos relacionarmos,
emitirmos nossos sentimentos e sermos diferentes entre
nós;
- Nossa “Alma” – permite termos um objetivo
de vida, um significado para nossa existência e
nos leva a lutar por nossos ideais, nossas crenças
e nossos valores.
Graças aos avanços científicos, principalmente
no campo da neurociência, é possível
não só medir como também desenvolver
estes três pilares, buscando o equilíbrio harmônico
entre eles. Colocando de outra maneira, temos o Pensamento
em Série – QI do cérebro, em que o pensamento
é algo linear, lógico e neutro. O seguinte
é o Pensamento Associativo – a Inteligência
Emocional do Cérebro (QE), que nos ajuda
a formar associações entre coisas e emoções,
entre uma e outra emoção, entre emoções
e sensações corporais, entre emoções
e meio ambiente. E finalmente o Pensamento Unitivo –
a Inteligência Espiritual do Cérebro (QS),
a inteligência que extrai sentido, contextualiza e
transforma. É a responsável pelo pensamento
criativo e intuitivo, um senso de unidade em nossa compreensão
de situações e em nossa relação
com elas.
Esta é apenas uma maneira didática e simbólica
de relacionar pessoas e sustentabilidade. Assim como nas
empresas, o primeiro pilar – associando os aspectos
econômicos com a inteligência cognitiva - é
mais fácil de ser entendido e valorizado, afinal
durante muito tempo foi o único parâmetro quantificado.
A inteligência emocional por suas características
de associações nos leva a um paralelo com
as questões ambientais, a necessidade de entender
os impactos que causamos e suas conseqüências.
Comparamos a inteligência espiritual (Danah Zohar
assim denominou esta inteligência pela sua maior presença
em religiosos) com responsabilidade social que requer uma
constante compreensão do ambiente, forte empatia
e uma profunda vontade de transformação da
realidade. Da mesma maneira que a base da Sustentabilidade
nas empresas é a transparência, consideramos
que o Ser Sustentável é alicerçado
pela Mente Ética. Segundo Howard Gardner, uma mente
ética constantemente se pergunta: ”Se todos
na minha profissão tivessem mentalidade igual à
minha, ou fizessem o que faço como seria o mundo?”
Ela “dá um salto mental e transcende os afazeres
cotidianos. Seu bem estar imediato é menos importante
do que a missão maior que endossou”. Como a
transparência nas empresas, a mente ética permeia
os três fatores de sustentação e possibilita
questionar cada ação realizada. Nas organizações
este questionamento ocorre de fora para dentro e nas pessoas
é interno e particular.
É claro que o desenvolvimento destes pilares é
tarefa individual, mas as organizações sustentáveis
têm um importante papel, criando estruturas e ambientes
para tanto. A verdadeira Sustentabilidade
empresarial só acontecerá quando estiver impregnada
em toda a estrutura, começando com a direção
da organização e atingindo todos os níveis
e áreas. Se as pessoas que fazem acontecer não
tiverem as habilidades necessárias, como poderão
desenvolver seus novos papeis?
O Ser Sustentável e Responsabilidade Social
Empresarial
A organização inglesa Nef – New Economics
Foundation, responsável pelo HPI (Happy Planet Index)
indicador que mede a eficiência ecológica de
países, associando qualidade de vida humana e impacto
ambiental, elaborou uma pesquisa sobre a origem da felicidade,
apresentando os seguintes resultados:
- 40% - felicidade associada ao fazer bem feito suas atividades,
apoiada por relacionamentos, engajamento, auto-estima,
liberdade de expressão e saúde;
- 50% - felicidade vinculada aos pais, família,
primeiros anos de vida e juventude;
- 10% - felicidade proveniente de outras circunstâncias
e condições materiais, como ganhos financeiros
e estado civil.
Também Gardner e pesquisadores de quatro universidades,
em projeto de longo prazo (Good Work Project), vêem
examinando como o indivíduo aspira fazer um bom trabalho
– um trabalho de alta qualidade, relevante para a
sociedade, que melhore a vida do próximo e seja desempenhado
de modo ético. Parece que uma quantidade razoável
de pessoas acredita na felicidade proveniente de fatores
que integram o Ser Sustentável.
Estes indivíduos desejam trabalhar em empresas sustentáveis,
o que cria enormes oportunidades para a Responsabilidade
Social Empresarial.
Conceitos e práticas de Responsabilidade Social
Empresarial são recentes e encontram-se em fase de
construção e evolução. Atenção
especial deve ser dada ao termo Responsabilidade, pois eleva
o papel empresarial a um patamar muito diferente da ação
social. Para países como Brasil, onde as carências
sociais são tão grandes, não é
fácil entender esta diferença. Responsabilidade
Social Empresarial extrapola fazer boas ações
e projetos sociais e requer um papel amplificado na formação
do tecido social atual e futuro. Por esta razão,
a Responsabilidade Social começa dentro de casa,
cria espaços sustentáveis e liberdade de discussões,
forma líderes sustentáveis e finalmente participa
na construção do mundo sustentável.
Nesta direção, citamos três exemplos
globais importantes para o desenvolvimento da Responsabilidade
Social Empresarial, a saber:
- O documento “Implementação da Parceria
para o Crescimento e o Emprego” elaborado em março
de 2006 pela Comissão Européia e que visa
tornar a Europa um Pólo de Excelência em
termos de Responsabilidade Social nas Empresas. Ele estimula
e incentiva as empresas européias a adotarem a
Responsabilidade Social Empresarial, mobilizando recursos
e stakeholders para o desenvolvimento sustentável,
o crescimento econômico e a criação
de empregos, bem como as reconhece como os principais
atores da RSE e alerta para a necessidade do apoio ativo
e das críticas construtivas dos stakeholders que
não pertencem ao mundo empresarial.
- O documento “Liderança Globalmente Responsável”
elaborado em junho de 2006 pela United Nations Global
Compact & EFMD-European Foundation for Management
Development e que representa um Chamado ao Engajamento.
Trata-se de um convite para o debate sobre a melhor maneira
de criar e educar líderes do futuro. Ele indica
que: “As decisões tomadas por líderes
globalmente responsáveis dependem tanto da consciência
dos princípios e dos regulamentos quanto do desenvolvimento
da dimensão interior e da consciência pessoal”.
Essas características podem ser transmitidas e
desenvolvidas através do diálogo e do debate.
Os valores éticos mestres que estabelecem um ponto
de partida para a liderança globalmente responsável
incluem: justiça, liberdade, honestidade, humanidade,
tolerância, transparência, responsabilidade,
solidariedade e sustentabilidade. Essas não são
questões éticas fixas, mas precisam ser
constantemente refinadas e desenvolvidas.
- O terceiro documento é a “Carta da Terra”
que iremos abordar no capítulo a seguir.
A Construção do Futuro Comum
O sentido de Responsabilidade Social Global é magnificamente
expresso na Carta da Terra. Este documento começou
a tomar forma na ECO-92, no Rio de Janeiro e a versão
final foi lançada no Palácio da Paz em Haia
em 29/06/2000 sendo então assumida pela Unesco. A
Carta da Terra traduz uma ética global para uma sociedade
global. Estruturada em quatro grandes tópicos, prega
uma aliança para solução das questões
globais, através do binômio sustentabilidade
– quando se usa com respeito e racionalidade os recursos
naturais pensando nas gerações futuras e cuidado
– que é o comportamento benevolente, respeitoso
e não agressivo para com a natureza da qual somos
parte. A seguir parte do preâmbulo da Carta da Terra
que retrata bem o seu conteúdo:
“Devemos
decidir viver com um sentido de responsabilidade universal.
O espírito de solidarie-dade humana e de parentesco
com toda a vida é fortalecido quando vivemos com
reverência o mistério da existência,
com gratidão pelo dom da vida e com humildade em
relação ao lugar que o ser humano ocupa na
natureza.”
Este convite da Carta da Terra evoca a necessidade de uma
maior responsabilidade com a sociedade, partilhando experiências
e construindo um sonho comum. É um convite às
organizações, mas é principalmente
um convite a cada um de nós, seres sustentáveis.
Finalizando, o processo social é de todos nós,
como tão bem colocaram Humberto Maturana & Francisco
Varela: “O mundo que todos vêem não é
o mundo, mas um mundo que criamos juntamente
com outras pessoas. Este mundo humano tem por elemento central
o nosso mundo interior de pensamentos abstratos, conceitos,
crenças, imagens mentais, intenções
e autoconsciência”.
É nossa responsabilidade cuidar com carinho deste
mundo e das pessoas que o partilham!
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