| É preciso não desperdiçar
a oportunidades
Isac Zagury
é Diretor Financeiro da Aracruz Celulose.
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Os anos 90 se notabilizaram por uma sucessão de
crises financeiras nas economias em desenvolvimento. Países
da América Latina e da Ásia perderam reservas
internacionais e seus indicadores econômico-financeiros
alcançaram níveis de quase insolvência.
Programas de suporte financeiro foram implementados, pelo
FMI, bem como foram adotadas rígidas políticas
monetárias e fiscais. Os países ricos também
prestaram socorro financeiro, através de perdão
e refinanciamento de dívidas, via Clube de Paris.
Passados 10 anos, os dados econômicos dessas regiões
melhoraram substancialmente. Regimes de câmbio se
tornaram flutuantes, políticas fiscais mais saudáveis,
contas correntes positivas e mercados de capitais domésticos
em forte expansão. Atualmente, os mercados emergentes
representam 85 % da população e 30 % do PIB
mundial, com a inflação média girando
em torno de 6 % a.a. Por outro lado, o mundo vem crescendo
a taxas superiores às das últimas décadas.
Tivemos um longo ciclo de juros baixos nos países
industrializados e que ainda deve continuar por mais alguns
anos.
A população dos países emergentes
vem crescendo a um ritmo 3 vezes superior à dos países
desenvolvidos. A expansão da demanda aliada à
oferta escassa de materiais básicos levou os metais
a mais que dobrarem de preços, bem como o petróleo
a alcançar, recentemente, o recorde de 100 dólares
por barril. Os países produtores de commodities metálicas
e exportadores de mão de obra barata passaram a acumular
grandes excedentes de reservas em moeda forte. Hoje, 60
% do déficit de conta corrente dos 10 países
mais ricos são financiados pelo superávit
dos chamados emergentes. Os benefícios da tecnologia
e da globalização vêm, também,
reduzindo as diferenças entre países ricos
e pobres, através do crescimento acelerado do comércio
e de maiores fluxos de investimentos internacionais.
Mais recentemente, o excesso de liquidez levou novamente
as instituições financeiras internacionais
a repetirem erros do passado, com muita liberalidade na
concessão de crédito e criatividade na montagem
de operações financeiras exóticas.
Ocorre que agora os mutuários não são
mais os países emergentes e sim as suas próprias
populações e organizações. Novamente
os órgãos reguladores e as agências
de classificação de risco não foram
suficientemente vigilantes para evitar outra séria
crise. Metade das operações contratadas no
financiamento do mercado de imóveis residenciais
nos EUA, na categoria "subprime", foi realizada
sem comprovante de renda dos devedores. O grau de alavancagem
no financiamento de aquisições de ativos nos
EUA ultrapassou todos os limites da prudência e de
critérios de liquidez. A crise é tão
grave que as vendas de imóveis existentes nos EUA
caíram cerca de 35% em relação ao pico
de setembro de 2005. Em 2007, o setor financeiro americano
perdeu cerca de 25% do seu valor de mercado. Os fundos soberanos
já injetaram aproximadamente 30 bilhões de
dólares nos bancos ocidentais, adquirindo participações
acionárias a preços bastante atrativos. Os
petrodoláres, que na década de 70 eram aplicados
em depósitos interbancários do mercado de
Londres, passaram agora a ser canalizados para aquisição
de ativos reais.
Por outro lado, a importância da economia americana
no contexto mundial já é agora bem menor,
uma vez que 60% do crescimento global têm sua origem
nos mercados emergentes. Esse vigor da economia internacional
aliado a forte demanda por recursos naturais também
beneficiaram bastante o Brasil nos últimos anos.
Além disso, mudanças paradigmáticas
foram realizadas na economia brasileira na última
década. O programa de privatização,
a estabilidade da moeda obtida com o sucesso do Plano Real,
a Lei de Responsabilidade Fiscal e os programas públicos
de transferência de renda foram os pilares dessa grande
transformação. A diminuição
da vulnerabilidade externa permitiu, também, que
o foco das políticas públicas se voltasse
para a redução das desigualdades, com o índice
de pobreza da população caindo 10 pontos percentuais
na última década.
A economia encontra-se agora em franca expansão,
com o nível de utilização da capacidade
instalada atingindo o maior nível dos últimos
30 anos. Não me recordo de um ano no Brasil em que
o crescimento do PIB tenha sido maior que a taxa de inflação,
como ocorreu em 2007. O potencial do país é
enorme, já que é responsável por 22
% da terra disponível no mundo para investimentos
agrícolas. Economia de mercado, recursos naturais
abundantes e a elevada produtividade do agronegócio
são apenas algumas vantagens que nos diferenciam
dos países do grupo dos BRIC. Entretanto, vale lembrar
que o crescimento mais acelerado da China e da Índia
está muito relacionado ao aumento de produtividade
decorrente do recente processo de urbanização,
através de fortes fluxos migratórios. Por
outro lado, embora o exercício da democracia torne
mais lento e doloroso o processo de implementação
das reformas estruturais, nos assegura certamente um crescimento
mais sustentável e uma sociedade mais justa e solidária.
Entretanto, não podemos esquecer os enormes desafios
que temos de enfrentar com muita urgência. Os programas
de transferência para os menos favorecidos chegarão
a um limite, caso a questão de fundo não seja
encarada de forma mais estrutural. Uma educação
pública de qualidade é a maior das prioridades
para que o desenvolvimento seja auto-sustentável.
Talvez esse seja o maior de nossos apagões. É
necessário reorientar as prioridades e gastar o recurso
público com mais eficiência. Hoje, a falta
de mão de obra qualificada se tornou a grande restrição
à manutenção do crescimento econômico
a taxas mais elevadas.
Já passou da hora também de simplificar o
sistema tributário. A sua grande complexidade e o
número elevado de impostos e contribuições
provocam enormes custos e burocracias adicionais para as
empresas. A implementação da súmula
vinculante é, também, imprescindível
para solução de numerosos contenciosos tributários,
hoje paralisados nos tribunais inferiores. Reforma tributária
é certamente o tema mais polêmico em qualquer
sociedade, pois implica em transferência de renda
entre grupos de poder e em renúncia de direitos.
Portanto, deve ser um processo gradual que busque inicialmente
a racionalização e depois uma distribuição
mais eqüitativa de obrigações e direitos
entre os diversos entes da federação.
A responsabilidade fiscal é a base para a eficiência
das políticas públicas. Compra de reservas
e recompra de dívida representam apenas troca de
ativos e passivos. A redução do déficit
nominal do governo é que diminui efetivamente em
termos líquidos a dívida do governo. Todavia,
os gastos correntes do governo nos últimos 20 anos
aumentaram a uma taxa duas vezes superior ao crescimento
da própria economia. Temos de ter em mente que a
carga tributária é uma mera conseqüência
do nível das despesas públicas. A constituição
de 1988 foi, também, muito perversa com a qualidade
e eficiência do gasto público. Muitas fontes
de recursos passaram para a esfera dos poderes estaduais
e municipais, porém sem a respectiva contrapartida
de competências e obrigações. Foram
criados mais de 1000 novos municípios nos últimos
20 anos. As despesas do judiciário e do legislativo,
como proporção do PIB, simplesmente dobraram.
E, para equilibrar gastos e receitas, o governo central,
ao longo dos anos, foi obrigado a criar 5 novas contribuições
e taxas. Além disso, a gestão do orçamento
foi, gradativamente, engessada pelo crescente número
de vinculações de fontes e usos. Essa falta
de flexibilidade restringe a capacidade de crescimento da
economia e perpetua privilégios dos setores mais
organizados.
O crescimento do mercado de capitais é um dos fatores
mais importantes da sustentabilidade para o crescimento,
pois só ele permite os benefícios da democratização
das oportunidades. É necessário ainda que
haja avanços na melhoria da governança nas
empresas, bem como melhor regulação de mercado,
principalmente, no que concerne ao tratamento de informações
privilegiadas. Inúmeras companhias vêm trilhando
o caminho da formalização, contribuindo, sobremaneira,
para a ampliação da base de arrecadação
tributária. E isso só foi possível
graças à estabilidade monetária, conquista
irreversível e legítima da sociedade brasileira.
Por outro lado, o alongamento do perfil da dívida
pública e o aumento da parcela de títulos
públicos indexados a preços e a taxas fixas
permitiram que grandes somas de recursos fossem redirecionados
para o financiamento das iniciativas privadas. Assim, a
manutenção de uma trajetória de queda
das taxas de juros é imprescindível para a
continuidade desse processo.
Infelizmente, ainda persiste o grave problema da previdência
social. Hoje, o País gasta com os seus aposentados
o mesmo que países desenvolvidos,embora tenha uma
população muito mais jovem. As conquistas
da medicina vêm aumentando significativamente a longevidade
das populações. A previdência é
considerada o grande desafio das sociedades modernas. É
urgente que esse debate seja ampliado, através dos
canais organizados da sociedade civil. Temos hoje 1 aposentado
para cada 1,7 trabalhador, diferente da relação
de 1 para 9 de 50 anos atrás . Essa é uma
questão em que o tempo só agrava a sua complexidade
e ônus da solução, tornando então
inadiável o seu enfrentamento.
Existem capitais nacionais e internacionais abundantes
para novos investimentos em infra-estrutura. Inúmeros
fundos foram recentemente constituídos com esse objetivo.
Porém, marcos regulatórios estáveis
e concessões mais expeditas de licenciamento ambiental
são imprescindíveis para que os investimentos
se materializem. Enfrentar os grandes gargalos da infra-estrutura
é fundamental para redução dos custos
do setor exportador e um aumento significativo da produtividade.
E isso só será possível, também,
com o respeito ao direito de propriedade e a estrita observância
da segurança jurídica dos acordos e contratos.
O cenário internacional vem sinalizando um possível
recrudescimento da inflação, em função
da alta dos preços agrícolas. A prosperidade
nos países emergentes é, sem dúvida,
o maior indutor desse processo. O consumo de carne per capita
duplicou na última década. Os estímulos
concedidos pelo governo americano para a produção
de etanol vêm elevando, também, os preços
do milho e da soja para patamares recordes.
Por outro lado, como um dos maiores celeiros do mundo de
recursos naturais e produtos agrícolas, o Brasil
será o grande beneficiário desse novo ciclo
de crescimento da economia internacional. Assim, não
podemos desperdiçar novamente essa oportunidade de
deixar de ser o eterno país do futuro.
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